18 março 2019

Jacques Audiard - The Sisters Brothers (2018)

Dois assassinos são contratados para matar um garimpeiro. Este é um western peculiar, cujo motor da trama é a personalidade vincada e profunda das personagens, encarnadas por um elenco de luxo. O oeste americano é o cenário perfeito para a ganância e a amoralidade, onde o ouro é o mais importante e o coração mais puro tem de matar friamente para sobreviver. A narrativa arrasta-se pelo meio, mas o terceiro acto é o melhor do filme.

15 março 2019

Robert Greenwald - Iraq for Sale: The War Profiteers (2006)

Ainda a respeito do Vice, vale a pena ver este documentário de Robert Greenwald. O filme aborda quem realmente ganhou com a invasão do Iraque, nomeadamente quatro empresas que forneceram serviços e produtos para o exército americano e lucraram milhões, enviando pessoal mal formado ou produtos deficientes, com a conivência oculta do Partido Republicano. Uma delas é a KBR, uma subsidiária da Halliburton, tendo sido esta presidida por Dick Cheney antes de se tornar vice presidente. Fornecia alimentação, água potável, um serviço de transportes, entre outros. Na realidade a comida e a água estavam contaminados, os camionistas não tinham a mínima formação de cenário de guerra e, num dos episódios mais chocantes do filme, quatro deles morreram quando foram enviados para uma zona de batalha sem protecção militar. São 80 minutos de uma torrente de factos, entrevistas e revelações que por vezes cai na manipulação emocional e não disfarça a sua agenda política, mas que incita à reflexão e ao debate sobre a ganância que reina no capitalismo liberal e na política. O filme está completo no youtube.



13 março 2019

Bradley Cooper - A star is Born (2018)

Bradley Cooper, na sua estreia na realização, filma de um modo intimista e terno esta história de amor entre o mentor e a futura estrela que ele ajuda a lançar. Apesar de ser a quarta versão (a primeira foi produzida há oitenta anos), Cooper prova que é uma história intemporal, encaixando na perfeição elementos actuais como o sucesso imediato pelo youtube e a indústria da pop, sobre a qual senti um subtil crítica. O que não deixa de ser irónico, visto ser o universo da actriz Lady Gaga. Mesmo assim, esta entrega-se de modo sincero, criando uma boa cumplicidade com o seu co-protagonista. Por último destaco a música, a que Cooper dá tempo para brilhar e se tornar o grande definidor das personagens e do seu amor.

12 março 2019

Bob Persichetti, Peter Ramsey, Rodney Rothman - Spider-Man: Into the Spider-Verse (2018)

Este filme foi uma grande surpresa. Tendo em conta como os estúdios da Sony têm tratado o homem-aranha, esperava o pior. No entanto, esta aventura que une várias versões da personagem de realidades alternativas, é uma pequena pérola. Um jovem Morales que está a aprender usar os seus poderes e um Peter Parker que desistiu de viver criam uma ligação de amizade, de aprendizagem e esperança. Uma maravilhosa animação ao estilo de banda desenhada e um humor inteligente fazem deste filme uma das melhores animações de Hollywood dos últimos tempos.

06 março 2019

Adam Mckey - Vice (2018)

Esta biografia de Dick Cheney começa por ser interessante, enquanto percorremos pelos bastidores da política norte americana e os seus jogos obscuros e também de como ele se tornou o homem mais poderoso da Casa Branca. Mas o que ficamos a conhecer sobre o homem? Que esteve no sítio certo e na altura certa e soube aproveitar as oportunidades e no final a personagem continua tão opaca e distante como no ínicio.  O que move o espectador quando assiste a uma história é sua identificação e empatia pelas personagens, mesmo pelos vilões. E é aqui que o filme falha: não temos ninguém a quem nos agarrar. E perdeu-me enquanto espectador. Os actores entregam-se de corpo e alma, com um Sam Rockwell  que rouba o filme com as suas 3 cenas como George Bush filho. O realizador Adam Mckay insere uns divertidos toques de ironia, mas não conseguem dar impacto ao lado denúncia do filme. E igualmente nisto falha, pois lança farpas soltas, como o envolvimento do Cheney com um dos principais fornecedores das tropas americanas no Iraque, que nunca são desenvolvidas.

04 março 2019

Yorgos Lanthimos - The Favourite (2018)

Nas mãos de outro realizador este seria mais um filme de prestígio BBC, muito certinho mas inócuo. Yorgos Lanthimos dá-nos uma obra ácida, um triangulo amoroso e de poder corrosivo, composto por duas mulheres ambiciosas em luta pelo amor de uma rainha emocionalmente frágil e o consequente poder que daí advém. Admiravelmente filmado de modo a provocar incômodo no espectador e com iluminação natural (a fazer lembrar o Barry Lyndon do Kubrick) e com três fabulosas actrizes que se entregam de corpo e alma a personagens moralmente ambíguas.


02 março 2019

Arthur Miller, artistas Unidos, Jorge Silva Melo - Do Alto da Ponte

Eddie, tal como um herói de uma tragédia grega, é cego, pois não compreende que os seus sentimentos e o seu orgulho o levarão à desgraça. Siciliano, trabalhador no porto de Nova York, é um pai de família dominador que acolhe dois familiares imigrantes ilegais. O mais novo destes começa a namorar com a sobrinha Eddie, que cria desde pequena, mas que “ama demasiado” como diz o advogado e narrador da peça. E assim começa uma espiral de destruição que arrasta toda a sua comunidade. Jorge Silva Melo cria um ambiente perfeito para os diálogos tensos que escondem as verdadeiras motivações das personagens. Para além do amor proibido, o que torna esta história intemporal (e, neste momentos, terrivelmente actual) é a vida dos imigrantes, que querem trabalhar para viver, e consequentemente contribuir para a economia do país de acolhimento, e mesmo assim são perseguidos.

24 fevereiro 2019

Hotel Europa - Amores Pós-Coloniais

O amor é a verdadeira revolução. Com esta citação de Srecko Horvart, André Amálio resume a essência desta quarta produção de teatro documental dos Hotel Europa, companhia na qual reparte a criação com a sua companheira, a bailarina e coreógrafa Tereza Havlícková. Da investigação das anteriores, que formam uma trilogia sobre o colonialismo e o lado obscuro da sua história: Portugal Não É Um País Pequeno (2015), Passa-Porte e Libertação (ambas de 2017), encontrou uma outra faceta deste período da história portuguesa: o modo como a política e a guerra condicionaram as relações amorosas. A partir de mais de 40 entrevistas realizadas em várias localidades escolheram 16, que se tornaram a base deste espectáculo. Os dois criadores, com mais quatros actores e músicos, Júlio Mesquita, Laurinda Chiungue, Pedro Salvador e Romi Anuel, estão munidos de auriculares nos quais ouvem os testemunhos gravados e reproduzem-nos, em cada palavra, entoação e intenção. Aqui Laurinda Chiungue é brilhante no modo como se transforma em cada história. E estas entrecruzam-se, dialogam entre si, são ditadas, representadas e encenadas com vídeo, música e dança. O conceito de amor alarga-se ao parentesco. Os actores revelam igualmente os seus amores. O amor é universal. O amor, o verdadeiro amor, não tem cor nem estrato social. Mas tem de lutar contra o preconceito. Se o 25 de abril foi uma revolução contra a opressão, o racismo ainda hoje permanece, e cada uma destas histórias é um passo nessa luta. Sim, o amor é a verdadeira revolução.

14 fevereiro 2019

Mark Millar, Goran Parlov - Starlight (2014)

A história (de Mark Millar) até começa bem: Duke McQueen, um sexagenário solitário, viúvo e distante dos filhos foi, na sua juventude, o salvador do universo numa aventura intergaláctica. Mas na Terra, exceptuando a sua mulher, ninguém acreditou nele. A sua vida volta a ganhar sentido quando recebe um pedido de ajuda do mesmo planeta onde se tornou herói. A arte de Goran Parlov sugere o imaginário da ficção científica dos anos 1950. Pensei estar perante uma obra que brincasse com a nostalgia, com os clichés, e que juntamente reflectisse sobre o envelhecimento, a masculinidade, etc. Mas não. Os clichês estão lá (o ditador é mesmo malvado) mas não há ironia, não há profundidade. Tudo se torna previsível, enfadonho e inconsequente. De Millar (criador do Kingsman e Kick-Ass) esperava melhor.

09 fevereiro 2019

Peter Farrelly - GreenBook (2018)

Anos 60. Tony Lip (um soberbo Viggo Mortensen), um italo-americano racista, é contratado como motorista (e, principalmente, segurança) do pianista afro-americano Don Shirley (um Mahershala Ali muito bom, como sempre) numa digressão por esse império da segregação racial que são os estados do sul norte-americano. Para o ajudar nessa função, leva consigo o livro The Negro Motorist Green Book, um guia de viagem, e também um manual de sobrevivência para os negros que percorram essa parte do país. Infelizmente o racismo nos Estados Unidos voltar a estar em voga e que na realidade muito pouco mudou nas últimas décadas, como nos é mostrado por Spike Lee no seu BlacKkKlansman, igualmente inspirado numa história verídica. Green Book tem uma abordagem mais sentimental, acompanhando a mudança de atitude de Tony à medida que cresce uma grande amizade entre os dois. Sim, o filme é humano e simpático, mas o que realmente nos agarra é a química entre os dois actores. O problema é que o realizador, Peter Farrelly, muito longe da irreverência dos Doidos por Mary, aborda o tema com pinças, deixando uma sensação de suavização das consequências do racismo, tornando este filme pouco mais do que um inócuo divertimento televisivo de domingo à tarde.